Durante décadas, moradores do Gravatá conviveram com uma paisagem que mudava a cada ressaca. O avanço do mar, a redução da faixa de areia e os danos provocados por eventos extremos fizeram parte da história recente de um dos principais balneários de Navegantes. Agora, as imagens que por tantos anos registraram os efeitos da erosão dão lugar a um cenário diferente: uma praia ampla, recuperada e novamente entregue à população.

A transformação representa mais do que uma mudança na paisagem. O alargamento da Praia do Gravatá é resultado de uma longa busca por uma solução capaz de aumentar a proteção da orla e devolver à praia parte do espaço perdido para o mar ao longo dos anos.

Uma história marcada pelas ressacas

Os problemas não começaram recentemente. Há registros de erosão e dos efeitos do avanço do mar no Gravatá há décadas. Mas alguns episódios ficaram especialmente marcados na memória dos moradores.

Em outubro de 2016, uma forte ressaca atingiu a região e provocou grandes estragos. Na época, foram registrados danos no deque de madeira, calçadas, estacionamento, postes de energia, academia popular, estruturas de lazer e na própria contenção da orla. O município chegou a decretar situação de emergência e os prejuízos foram estimados, à época, em aproximadamente R$ 2 milhões.

No ano seguinte, o cenário voltou a se repetir. Duas ressacas de grandes proporções, em setembro e outubro de 2017, atingiram principalmente o Gravatá. Registros daquele período mostram que o deque foi destruído e novas intervenções precisaram ser realizadas para tentar conter o avanço da maré sobre o calçadão e a Avenida Prefeito Cirino Adolfo Cabral.

As consequências desses episódios permaneceram visíveis nos anos seguintes. Em 2020, outra forte ressaca voltou a provocar danos nas estruturas de acesso à praia. Na ocasião, duas das 11 rampas instaladas na região apresentaram estragos significativos. As próprias estruturas haviam sido implantadas dentro de um processo de reconstrução da infraestrutura afetada pelas ressacas de 2016 e 2017.

A faixa de areia foi desaparecendo

Mais do que episódios isolados, as ressacas evidenciavam um problema de longo prazo: a erosão costeira.

Um estudo científico sobre a dinâmica da orla de Navegantes, realizado a partir da análise de imagens entre 2004 e 2018 e de levantamentos após ressacas em 2019, identificou redução da faixa de restinga na região norte, correspondente à Praia do Gravatá, a partir de 2016. O trabalho apontou a erosão como um problema grave no local.

Com o passar dos anos, o avanço do mar reduziu cada vez mais o espaço disponível. Em períodos de maré alta, trechos significativos chegavam a ficar submersos, limitando caminhadas, lazer, práticas esportivas e o próprio uso da praia. Documentos técnicos que fundamentaram o projeto de alargamento chegaram a registrar pontos com completa ausência de areia.

Era uma realidade que moradores conheciam de perto: dependendo da condição do mar, a praia praticamente desaparecia em determinados trechos.

Ao mesmo tempo, diferentes alternativas foram discutidas ao longo dos anos. Já no início dos anos 2000 houve tentativa de recuperação utilizando sedimentos provenientes de uma jazida continental, que acabaram sendo removidos pela dinâmica das ondas e correntes. Posteriormente, pedras também foram utilizadas em diferentes momentos para proteger a infraestrutura da orla.

Após as grandes ressacas, especialmente a partir de 2017, a busca por uma solução permanente ganhou ainda mais força e passou a envolver poder público, comunidade, empresários e especialistas.

Uma solução para proteger o futuro

Foi nesse contexto que o alargamento da faixa de areia se consolidou como uma solução de engenharia para enfrentar a erosão costeira.

Mais do que criar uma praia maior, a alimentação artificial recompõe uma faixa que funciona também como proteção da linha de costa. Com mais areia entre o mar e a área urbanizada, aumenta-se a capacidade da praia de absorver a energia das ondas e enfrentar eventos extremos, reduzindo a exposição da infraestrutura existente junto à orla.

O projeto também amplia o espaço destinado ao lazer, turismo e prática esportiva, além de contribuir para a recuperação de ambientes costeiros e para a valorização de uma região que possui forte relação com o comércio, gastronomia, turismo e surfe.

A transformação saiu do papel

Em 20 de julho de 2026, a cena que por muitos anos existiu nos projetos finalmente ganhou o mar. A draga Galileo Galilei iniciou o bombeamento de areia na Praia do Gravatá.

A operação começou nas proximidades do Rio das Pedras e avançou em direção ao Molhe do Gravatá, abrangendo 2,3 quilômetros de orla. A obra foi executada pela multinacional belga Jan de Nul, com investimento de aproximadamente R$ 31,5 milhões.

Com 166 metros de comprimento e capacidade para transportar cerca de 18 mil metros cúbicos de sedimentos por viagem, a Galileo Galilei retirou areia de jazida submarina autorizada e realizou o transporte e bombeamento do material até a costa.

Foram 22 dias de trabalho envolvendo bombeamento e distribuição da areia, espalhamento, assentamento do solo e retirada das estruturas utilizadas na operação. Após a acomodação, o projeto prevê uma faixa de aproximadamente 70 metros de largura.

De volta à população

No dia 12 de agosto de 2026, após avaliação do Corpo de Bombeiros Militar, a Praia do Gravatá foi oficialmente liberada para moradores e visitantes.

Onde durante anos fotografias mostraram o mar avançando, estruturas danificadas e uma faixa de areia cada vez menor, hoje a paisagem é outra.

A nova extensão permite novamente caminhar, praticar esportes, brincar, permanecer na areia e contemplar o mar com mais espaço. Mas o principal resultado vai além daquilo que aparece nas fotografias: a intervenção representa uma nova estrutura de proteção para uma região que sofreu repetidamente com a erosão e com a força das ressacas.

As imagens do passado ajudam a dimensionar essa transformação. Cada fotografia de uma ressaca, de um deque destruído, de pedras colocadas para conter o avanço do mar ou de uma praia quase sem areia registra uma etapa dessa história. E faz com que a imagem atual tenha ainda mais significado.

Depois de décadas vendo o mar avançar, o Gravatá inicia um novo capítulo. Uma praia recuperada, mais ampla e preparada para continuar fazendo parte da história de Navegantes, agora com mais espaço para as pessoas e mais proteção para a orla.

Texto: Redação JC

Fotos antigas: Arquivo JC

Foto atual: Aleson Padilha SECOM