Criado em 1984 por um grupo de amigos, o Bloco D’Amizade ajudou a escrever um dos capítulos mais marcantes da história do Carnaval de Navegantes. Nascido da união, da criatividade e da paixão pela folia, o grupo tornou-se referência dentro e fora do município, conquistou títulos, levou o nome da cidade para diferentes regiões e construiu um legado que atravessa gerações.
A ideia surgiu durante uma reunião de amigos na casa de Alcenio e Vani dos Passos, de onde saiu a decisão de criar o grupo que passaria a desfilar pela Avenida João Sacavém. A fantasia escolhida foi a de ciganos, confeccionada artesanalmente com tule, uma opção acessível para todos. Inspirados pelo sucesso da música “O Amanhã”, interpretada por Simone, surgiu também o primeiro nome do grupo: Ciganos do Amanhã.
Não havia estrutura, recursos ou grandes planejamentos. Cada participante produziu sua própria fantasia. O amigo Edivaldo Couto, o Babuca, levou alguns instrumentos musicais e a animação fez o restante. Estavam entre os fundadores Hamilton João da Silva e Mara; Giovane Pivatto e Benta; Walmor Cordeiro Júnior e Marline; Ivone Passos Ortiz; Alceninho; Valdirene; Alcenio Passos; Rosele Rodrigues; Eduardo Stringari; José Antônio da Silva Branco e Ilzelena; José Neves Filho e Cleusa; Edivaldo Couto (Babuca) e Shirley; Marcos Hansen (Tizio); Nenê e Bethe. Ao longo dos dias, outros amigos também passaram a integrar aquele grupo que começava a dar vida a uma nova tradição carnavalesca.
Embora nunca tenha exercido a presidência do bloco, Alcenio Passos rapidamente tornou-se uma das figuras centrais dessa história. Sua residência, ao lado da esposa, Vani, transformou-se espontaneamente no ponto de encontro dos integrantes. Era ali que aconteciam as reuniões, os ensaios, a confecção das fantasias e o planejamento dos desfiles. A identificação foi tão forte que, durante muitos anos, o grupo ficou popularmente conhecido como “Bloco do Alcenio”, tendo como primeiro presidente, Hamilton João da Silva, esposo de Mara Passos da Silva, filha de Alcenio.
No ano seguinte, em 1985, veio a primeira grande mudança. As fantasias ganharam mais elaboração e o grupo passou a se organizar de forma mais estruturada. Foi então que Dona Vani fez uma sugestão que marcaria definitivamente a história da agremiação: trocar o nome para Bloco D’Amizade, uma homenagem ao verdadeiro motivo que unia todos aqueles foliões: a amizade. A ideia foi aprovada por unanimidade e o novo nome acompanharia o bloco pelos anos seguintes. A fantasia foi com pompons coloridos.
Naquele mesmo período, o então secretário municipal de Turismo, Adolfo da Luz, conhecido como Carecão, que já organizava os primeiros carnavais de rua em Navegantes, convidou o grupo para integrar o desfile oficial organizado pela Prefeitura. Também veio o convite para desfilar na orla de Itapema. Nos anos seguintes, o D’Amizade levaria sua alegria para Balneário Camboriú, Piçarras e novamente Itapema, tornando-se conhecido em toda a região.
À medida que crescia, o bloco também se profissionalizava. A casa da família de Alcenio e Dona Vani tornou-se praticamente a sede oficial do D’Amizade durante o Carnaval. Os ensaios aconteciam inicialmente na rua ao lado da residência e, posteriormente, no terreno da Colônia de Pescadores.
A direção artística também era resultado de um esforço coletivo. Mara Passos assumia a função de carnavalesca, com apoio de Rosele Rodrigues. As fantasias eram confeccionadas por Dona Léia Rodrigues, mãe de Rosele, enquanto alegorias e adereços eram produzidos pelos próprios integrantes e por dezenas de voluntários que dedicavam noites e fins de semana para colocar o bloco na avenida.
O crescimento do Bloco D’Amizade acompanhou a expansão do próprio Carnaval de Navegantes. Novos blocos surgiram, os desfiles ganharam estrutura e passaram a contar com concursos oficiais julgados por comissões especializadas. Durante vários anos, o Bloco D’Amizade conquistou títulos de campeão, destacando-se pela criatividade, beleza das fantasias, carros alegóricos e apresentações cada vez mais grandiosas.
Em 1988, a presidência passou para Paulo Souza, mantendo viva toda a estrutura construída desde a fundação. No ano seguinte, por escolha dos integrantes, Elson Renato dos Santos, o Jacaré, assumiu a presidência do bloco, tendo ao seu lado a esposa e artista plástica Ilva Santos, que passou a comandar a criação artística dos desfiles.
Ilva Santos relembra que essa mudança também marcou a transferência da sede do bloco. Segundo ela, Dona Vani comentou que o Bloco D’Amizade deixaria de ser organizado na casa da família de Alcenio e, durante uma conversa, fez um convite que seria decisivo para a continuidade da história da agremiação: que Jacaré e Ilva assumissem a responsabilidade pelo bloco e levassem toda a estrutura para a casa deles. O convite foi aceito e, a partir daquele momento, a residência do casal passou a ser o novo ponto de encontro dos integrantes, mantendo viva uma tradição iniciada anos antes na casa de Alcenio e Dona Vani.
Jacaré sempre fez questão de preservar a essência que deu origem ao Bloco: a amizade. Mesmo com a mudança da sede, fez questão de manter o grupo fundador sempre unido, especialmente Alcenio Passos e toda a sua família. Entre eles estava Ivone Passos Ortiz, filha de Alcenio, que permaneceu participando ativamente da organização do bloco, ajudando a preservar sua identidade, sua história e suas tradições.
Ilva Santos conta que, nessa época, a amiga Reni Romão já havia se juntado ao grupo. Pouco tempo depois, Isolete dos Santos também passou a integrar a equipe e, anos mais tarde, chegou a assumir a presidência do bloco.
As fantasias foram confeccionadas em diferentes locais até que a agremiação conquistasse um barracão, que foi num galpão cedido por Adherbal Ramos Cabral. Antes disso, porém, diversas pessoas abriram as portas de suas casas para a confecção das fantasias. Entre elas estavam Marli dos Passos e o casal Neli e Carecão, que também disponibilizava o espaço de seu restaurante para a realização de promoções destinadas à arrecadação de recursos para o bloco, e ainda, para a realização dos ensaios da bateria.
Ilva ressalta que muitas pessoas contribuíram para que o bloco alcançasse sua trajetória de sucesso, inclusive após a mudança na presidência. Segundo ela, seria difícil citar todos os nomes, mas a gratidão por cada um daqueles que colaboraram sempre foi imensa. Todos, de alguma forma, deixaram sua marca na história da agremiação.
Sob a liderança de Jacaré e Ilva, o Bloco viveu fases marcantes. Os desfiles ganharam um impacto visual e ousadia artística. O bloco tornou-se notícia em todo o estado ao apresentar, pela primeira vez na região, um carro alegórico com nu artístico, utilizando pintura corporal em mulheres, além da emblemática personagem de uma sereia com os seios artisticamente pintados e uma fantasia de grande beleza cênica, que chamou a atenção do público e da imprensa.
A criatividade de Ilva Santos também se tornou uma das marcas registradas dessa fase. A falta de recursos financeiros nunca foi um obstáculo. Pelo contrário, servia de combustível para a imaginação da carnavalesca, que transformava materiais simples e descartáveis em verdadeiras obras de arte. Em um dos carnavais mais memoráveis da história do bloco, levou para a avenida o conceito de transformar o lixo em luxo, criando fantasias e alegorias a partir de materiais recicláveis. O desfile conquistou o título daquele carnaval em Navegantes e marcou época pela originalidade, justamente no mesmo período em que a Beija-Flor de Nilópolis encantava o Brasil com a mesma temática no Carnaval do Rio de Janeiro.
Durante anos, Jacaré permaneceu à frente do D’Amizade, tornando-se o presidente que mais tempo conduziu o bloco. Assim como havia acontecido anteriormente com Alcenio e Dona Vani, sua casa também se transformou em ponto de encontro da comunidade carnavalesca. Ali aconteciam reuniões, produção das alegorias, confecção das fantasias e todo o planejamento dos desfiles, mantendo viva a tradição de fazer o Carnaval de forma coletiva e familiar.
A dedicação de Jacaré ao bloco ficou marcada de forma definitiva em 2008. Mesmo enfrentando problemas de saúde, ele fez questão de que o D’Amizade mantivesse seu compromisso com o Carnaval e desfilasse normalmente. Com uma equipe trabalhando de forma incansável, tendo Eunice Coelho como costureira oficial. Naquele sábado de Carnaval, porém, faleceu, ainda na presidência da agremiação. Enquanto o bloco percorria a avenida, Jacaré era velado na Câmara de Vereadores de Navegantes, onde recebeu as últimas homenagens também por sua trajetória na vida pública, como vereador na legislatura de 1993 a 1996 e presidente do Legislativo Municipal.
Ao término do desfile, já durante a madrugada, um dos momentos mais emocionantes da história do Carnaval de Navegantes foi protagonizado por foliões de diferentes agremiações. Integrantes do D’Amizade e de outros blocos seguiram fantasiados até a Câmara de Vereadores, entre eles, Alceninho, filho de seu Alcenio, fundador do Bloco. Em silêncio, subiram a rampa carregando os instrumentos. Reunidos ao redor do caixão, prestaram uma última homenagem ao amigo e presidente cantando sambas-enredo que marcaram sua trajetória no Carnaval. A despedida emocionou familiares, amigos e carnavalescos e permanece na memória de quem viveu aquela noite como uma das mais bonitas demonstrações de respeito já vistas no Carnaval navegantino.
Mesmo com as mudanças naturais na diretoria ao longo dos anos, uma característica permaneceu inalterada: muitos dos integrantes fundadores continuaram participando do bloco, colaborando diretamente ou acompanhando de perto seu crescimento, sempre torcendo pelo sucesso daquela iniciativa que nasceu da amizade, dentro da casa do seu Alcenio e da dona Vani.
Após a gestão de Jacaré, outros presidentes deram continuidade ao trabalho. Em determinados períodos, o bloco chegou a interromper seus desfiles, mas jamais deixou de fazer parte da memória afetiva do Carnaval de Navegantes.
O reconhecimento àqueles que ajudaram a construir essa história também esteve presente na avenida. Alcenio, considerado o patriarca da família que acolheu o bloco desde os primeiros anos, foi homenageado em diferentes carnavais e permaneceu como um dos maiores símbolos da agremiação. Da mesma forma, Jacaré também recebeu homenagens pelo trabalho desenvolvido à frente do D’Amizade. Em um dos desfiles mais emocionantes da história do bloco, os dois dividiram o mesmo carro alegórico, simbolizando a união e a parceria entre as gerações responsáveis por manter vivo um dos maiores patrimônios do Carnaval navegantino.
Mais do que um bloco carnavalesco, o D’Amizade tornou-se uma verdadeira escola de convivência, solidariedade e dedicação voluntária. Sua história demonstra que o Carnaval de Navegantes não foi construído apenas por fantasias e alegorias, mas principalmente por famílias que abriram as portas de suas casas, doaram seu tempo e transformaram amizade em tradição.
Em 2023, essa história ganhou um novo capítulo. Liderados por Ivone Passos Ortiz, filha de Alcenio, antigos integrantes e amigos que fizeram parte da trajetória do Bloco decidiram reunir novamente o grupo para colocar o bloco de volta na avenida. Os tempos mudaram. As tradicionais fantasias deram lugar aos abadás, mas a essência permanece exatamente a mesma de 1984: um grupo de amigos que se encontra todos os anos para celebrar a amizade, a alegria e o verdadeiro espírito da folia de Momo.
Esse renascimento também inspirou uma nova geração da família. O músico Maykow Santos, filho de Jacaré e Ilva Santos, criou a Banda do Jacarezinho como uma homenagem ao pai e à história construída pelo Bloco D’Amizade. Com um repertório dedicado ao verdadeiro carnaval raiz, a banda mantém vivas as marchinhas, os sambas e a animação que marcaram época nos desfiles. Não por acaso, suas cores oficiais são o verde e o rosa, as mesmas que durante décadas identificaram o D’Amizade nas avenidas.
Mais de quatro décadas depois daquele grupo de amigos que saiu vestido de cigano pela Avenida João Sacavém, o Bloco D’Amizade continua sendo muito mais do que uma agremiação carnavalesca. É a prova de que os maiores patrimônios de uma cidade são construídos por pessoas. Pela generosidade de Alcenio Passos e Dona Vani, que abriram as portas de casa para que um sonho coletivo pudesse nascer. Pela dedicação de Jacaré e Ilva Santos, que deram continuidade a esse legado com criatividade, ousadia e amor pelo Carnaval. Pelo trabalho de todas as diretorias que passaram pelo blodo. E ainda, pela perseverança de Ivone Passos Ortiz e dos antigos integrantes, que devolveram o bloco às ruas, garantindo que a chama acesa em 1984 continue iluminando o Carnaval de Navegantes para as próximas gerações.
Texto: Jornalista Maila Santos SC 01773/JP – Fontes: Ivone dos Passos Ortiz e Ilva Santos
Fotos: Prefeitura de Navegantes e acervo pessoal de antigos membros da diretoria do bloco


























































