Academia de Letras do Brasil Seccional Navegantes – Por Jornalista Louise Benassi (Bacharel em Jornalismo, MBA em Gestão da Comunicação Pública e Empresarial)
Eu, que gosto muito de história e genealogia, descobri que em nossa família há o legado da cerveja artesanal. Minha bisavó paterna, Magdalena Kormann Krempel (nome de casada), era prima em segundo grau de Alois Kormann. Mas antes de chegar nele, vamos voltar um pouco mais no tempo para falar do seu pai, o alemão Vinzens Kormann (Vicente na forma aportuguesada).
Vicente Kormann foi o pioneiro do setor de produção de cerveja artesanal na região de Brusque. Fundada por volta de 1890, em Guabiruba, a Cervejaria Kormann abasteceu festas e eventos populares da região. Era um lugar muito frequentado pelos colonos, principalmente depois das missas. Ali se reuniam para brindar a vida. A cerveja era feita com ingredientes que os colonos plantavam: arroz, trigo e milho; já o lúpulo e o malte vinham da Europa. Depois de produzida, a cerveja era armazenada em barris para, então, ser engarrafada. Como ainda não existiam refrigeradores, eram abertas cavidades sob o assoalho das casas ou em porões, onde as garrafas eram colocadas e cobertas com terra até certa altura. A umidade do terreno ajudava a manter a temperatura, preservando a cerveja. A Cervejaria Kormann funcionou até, aproximadamente, 1940, quando a Segunda Guerra Mundial impossibilitou a importação de insumos para a produção da cerveja.
Em Itajaí, o filho de Vicente e Agatha Baumgärtner Kormann, Alois Kormann, deu continuidade ao legado cervejeiro da família. Nascido em 21 de junho de 1879, em Brusque, adquiriu aos 21 anos a antiga cervejaria de Otto Hosang, no bairro Fazenda, conforme informe comercial publicado no jornal O Progresso, de 3 de junho de 1899. Rebatizada como Cervejaria Kormann Filho, a empresa passou por uma completa reformulação no processo de fabricação. Em seus anúncios, Alois destacava que as cervejas produzidas poderiam competir com as melhores marcas da época. A cerveja preta tornou-se um dos produtos pelos quais a cervejaria ficou conhecida.
O mesmo jornal publicou, em 8 de julho daquele ano, uma nota de elogio à cerveja: “O senhor Kormann Filho, proprietário da cervejaria na Fazenda, teve a grandeza de oferecer-nos algumas garrafas da magnífica cerveja preta, fabricada em seu estabelecimento, e que se recomenda pelo sabor agradável que possui. Com vista aos apreciadores da dita…”
A fábrica de cerveja de Alois ficou bastante popular e tornou-se o ponto de encontro das classes e associações itajaienses. O jornal O Pharol de 1909 destaca o encontro da Sociedade Operária Beneficente, quando realizou festividade de 1º de Maio, finalizando as atividades com um convescote na cervejaria de Alois Kormann. A Associação de Senhoras Deutscher Frauenverein também promovia convescotes na cervejaria, segundo consta no jornal Novidade de 9 de abril de 1911.
Temos notícias da cervejaria de Alois nos periódicos da época ainda em 1916, quando os fabricantes Alois Kormann e Henrique Willerding anunciam no jornal O Pharol o reajuste dos preços da cerveja simples, dupla e preta.
Nas crônicas de Juventino Linhares, também é mencionado que a Cervejaria Kormann na Fazenda, além de produzir cerveja artesanal caseira, posteriormente passou a funcionar como ponto distribuidor da cerveja da marca Antarctica.
Silvinha de Souza Neves (em memória), neta de Alois e filha de Gertrudes (Tude) Kormann Tolentino de Souza, recordou que a cervejaria ficava num antigo casarão, próximo de onde fica hoje o Colégio Gaspar da Costa Moraes, e teria permanecido ali por muitos anos, transferindo-se depois para a Rua Lauro Müller, no antigo Casarão Canziani e, por fim, para a sede do Caça e Tiro, onde promovia famosas churrascadas para os marcilistas. Ela também lembrou que, entre as décadas de 1940 e 1950, a cervejaria produzia capilé e bitter.
O jornalista Guto Atherino, do Blog De Canhota, também resgatou uma lembrança familiar sobre a tradicional cerveja preta da Kormann: “Segundo meu querido e saudoso avô, a Preta de Itajaí era bem conhecida aqui na Capital. Em todas as mercearias era possível encontrar quem já havia se deliciado com ela. Popular como o futebol, sua coloração atípica e sabor forte eram muitíssimo apreciados nas noites de inverno na Ilha de Santa Catarina.”
Alois Kormann faleceu em 1957, aos 77 anos, deixando seu nome registrado não apenas na história do comércio de Itajaí, mas também na vida social e educacional da cidade. Sócio da Sociedade dos Atiradores de Itajahy e um dos patrocinadores da Escola Alemã de Itajahy, contribuiu para instituições que marcaram a formação da comunidade de origem germânica.
A pesquisa foi realizada a partir de jornais da época, documentos históricos e depoimentos de familiares, reunindo informações sobre a trajetória de Alois Kormann e sua contribuição para a história regional.
