Entrevista exclusiva

No mês em que a cidade celebra 64 anos, o chefe do Executivo faz um balanço do crescimento econômico, detalha obras como o alargamento do Gravatá e projeta o futuro do município.

Celebrando 64 anos de emancipação político-administrativa neste mês de agosto, Navegantes consolida sua posição como a 14ª maior economia de Santa Catarina. Impulsionada pelo pleno emprego, pela expansão da construção civil e pelo bilionário setor portuário e logístico, a cidade vive um ritmo acelerado de crescimento que atrai novos moradores diariamente. Para entender como o município planeja sustentar esse desenvolvimento e gerenciar a pressão sobre os serviços públicos, conversamos com o prefeito Ricardo Ventura. Advogado, contador e natural de Navegantes, Ventura assumiu o comando definitivo do Executivo em abril. Nesta entrevista exclusiva, ele detalha os bastidores da “Operação Sufoco” na segurança pública, a entrega da ampliação do Hospital Nossa Senhora dos Navegantes, o sucesso pós-alargamento da Praia do Gravatá e deixa uma mensagem para o coração do povo navegantino.

JC – Como o senhor avalia esse atual momento de crescimento da cidade e quais são os maiores desafios para garantir que esse desenvolvimento continue de forma sustentável?

Ricardo Ventura: Navegantes vive um momento histórico e consolidou-se como a 14ª economia de Santa Catarina. Estamos em pleno emprego, com mais de mil vagas abertas semanalmente e investimentos massivos. Destaco o aporte de R$ 2 bilhões na modernização da Portonave e a forte retomada dos nossos estaleiros, com a contratação de 12 novas embarcações pelas empresas Naveship e DOF, via Fundo da Marinha Mercante. O grande desafio é gerenciar a pressão desse crescimento sobre a saúde, infraestrutura e educação, onde registramos uma alta de 5% na demanda de vagas. Respondemos a isso construindo novas escolas e postos de saúde. Na habitação, enfrentamos a alta dos aluguéis buscando parcerias com os governos estadual (via programa Casa Catarina) e federal para erguer novas moradias. Por fim, o grande marco da nossa gestão será o edital de concessão de água e esgoto. Com investimento inicial de R$ 1 bilhão, vamos atingir quase 100% de cobertura e garantir a independência hídrica de Itajaí, preparando a infraestrutura para uma população que já superou os 100 mil habitantes.

JC – O crescimento do município atrai novos moradores e investidores diariamente. De que maneira a administração municipal tem trabalhado o planejamento urbano para estruturar os bairros e manter Navegantes atrativa para o mercado portuário, industrial e turístico?

Ricardo Ventura: Nosso foco está em conciliar o crescimento econômico com a qualidade de vida. Atualmente, a operação portuária movimenta mais de 2.300 caminhões por dia, volume que aumentará com a ampliação da Portonave. Para mitigar esse impacto, já temos um estudo de mobilidade urbana em andamento. Além disso, o nosso novo Plano Diretor modernizou o zoneamento e está atraindo novos investimentos. Já temos, inclusive, um grupo interessado na construção de moradias populares para equilibrar a forte demanda habitacional.Outra frente importante é a negociação para revisar o raio de aproximação do sítio aeroportuário. Queremos flexibilizar o limite de altura das construções num raio de quatro quilômetros, permitindo prédios maiores e melhor estruturados. Navegantes é uma das cidades que mais cresce no Sul do país e tem potencial para entrar no Top 10 das economias de Santa Catarina nos próximos anos. Inclusive, vamos anunciar um investimento privado de R$ 600 milhões, que vai gerar 350 empregos diretos na cidade.

JC – Recentemente, o senhor assumiu o compromisso público de modernizar o sistema de agendamento na saúde para acabar de vez com as filas de madrugada nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Como está o andamento dessa transição e quais são os próximos investimentos planejados para a saúde pública dengo dengo?

Ricardo Ventura: Hoje, o tempo médio de espera para especialidades sob custódia do município não passa de 60 dias. Nosso maior desafio com as filas tem sido o alto índice de absenteísmo; muitas pessoas agendam e faltam, o que acaba empurrando o calendário para a frente. Já para os procedimentos de alta complexidade regulados pelos governos estadual e federal, como tratamentos oncológicos, o fluxo segue critérios estritos de urgência e emergência. Nos próximos dias, inclusive, vamos lançar uma grande novidade tecnológica para modernizar essa gestão da saúde. Paralelamente, estamos investindo fortemente na infraestrutura. O Hospital Nossa Senhora dos Navegantes vive uma explosão de demanda: saltamos de 262 para 350 atendimentos diários no pronto-socorro, superando a movimentação de Pronto Atendimento de grandes hospitais da região em dias de pico. As obras de ampliação do segundo piso seguem o cronograma, com conclusão civil em dezembro e entrega da operação plena em março. Essa nova estrutura, que contará com três centros cirúrgicos modernos, nos tornará um modelo regional. Com isso, vamos ampliar significativamente a realização de partos, que hoje já somam até 70 por mês e de cirurgias eletivas, reduzindo a dependência de transferências para cidades vizinhas.

JC – A segurança pública e a assistência social têm sido marcas fortes das suas ações de rua, com foco na identificação, cadastro e encaminhamento de pessoas em situação de rua para o mercado de trabalho. Qual balanço o senhor faz dos resultados dessa política integrada com as forças de segurança?

Ricardo Ventura: Hoje vivemos uma situação muito melhor graças à “Operação Sufoco”, uma ação diária e integrada entre a Secretaria de Assistência Social, nossa Segurança Municipal, a Polícia Militar e a Polícia Civil. Nosso posicionamento é claro: respeitamos o direito constitucional de ir e vir, mas quem está de passagem e recusa atendimento, tratamento de saúde ou encaminhamento ao emprego, não permanecerá na cidade de forma irregular. Essa postura firme gerou uma redução de cerca de 40% no número de pessoas em situação de rua em Navegantes. Além disso, adotamos duas frentes estratégicas. Para os migrantes itinerantes, firmamos uma parceria com a Polícia Civil para tipificar como crime de furto o uso de carrinhos de supermercado subtraídos, o que inibe a permanência desse grupo. Já para os moradores locais em vulnerabilidade, muitos com histórico de alcoolismo, o foco é o acolhimento e a tentativa de internação em conjunto com as famílias. Essa integração policial e social também impactou diretamente na redução dos índices de criminalidade, especialmente nos pequenos furtos. Navegantes tem se tornado uma cidade cada vez mais segura e os números oficiais do final do ano devem consolidar essa realidade.

JC – Muitas empresas estão expandindo suas atividades ou se instalando na cidade, como está a questão da mão de obra?

Ricardo Ventura: A falta de mão de obra é o principal gargalo enfrentado hoje por grandes empresas da nossa sa região, como Camil, Lear, Navship, Portonave e Seattle. Temos mais de mil vagas abertas semanalmente que não são preenchidas por falta de qualificação profissional. Para enfrentar isso, o município tem firmado convênios estratégicos com o SESI e o SENAI, trazendo carretas de capacitação e oferecendo cursos de curta duração para inserir rapidamente os cidadãos no mercado de trabalho. Já no setor naval, vivemos uma dinâmica diferente. Essa mão de obra especializada costuma migrar pelo Brasil — transitando por estados como Rio de Janeiro, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Com a retomada dos nossos estaleiros, vamos atrair esses profissionais de volta para Navegantes. No auge do setor, a indústria naval empregou mais de 5 mil trabalhadores na nossa região e, por exigir alta qualificação, o retorno dessas atividades vai injetar salários com um tíquete médio elevado na economia local.

JC – Uma das obras de maior impacto para o turismo e a proteção costeira em debate na região é o alargamento da faixa de areia da Praia do Gravatá. Em que estágio se encontra esse projeto e qual o cronograma para que a população veja essa transformação concluída?

Ricardo Ventura: O alargamento da faixa de areia da Praia do Gravatá é uma realidade. Concluímos a dragagem em apenas 11 dias, resultando em 2,3 quilômetros de praia alargados com 420 mil metros cúbicos de areia e uma faixa estabilizada de 70 metros. Os estudos técnicos confirmaram que o molhe norte existente já funciona perfeitamente como barreira de contenção da maré. Esse investimento de R$ 31 milhões foi viabilizado por uma operação de crédito específica e o retorno financeiro para o município deve ocorrer em menos de um ano. Apenas nos primeiros dias da obra, a Secretaria de Planejamento já registrou um forte aquecimento no mercado imobiliário e no protocolo de novos empreendimentos. Esse movimento potencializa de imediato três impostos fundamentais da receita própria de Navegantes: o IPTU, o ITBI e o ISS da construção civil. Para o pós-obra, já estamos definindo o plano de uso da nova faixa. Teremos oito áreas esportivas para a prática de beach tennis, vôlei de praia e futebol de areia, além de banheiros e quiosques ecológicos junto à SPU (Secretaria de Patrimônio da União). O turismo já sentiu o impacto positivo imediato durante a execução do projeto e, agora, consolidamos uma nova infraestrutura que vai valorizar muito a nossa região.

JC – A mobilidade urbana e o trânsito são gargalos constantes em cidades de rápido crescimento. Além das obras de pavimentação nos bairros, quais intervenções viárias estruturantes a prefeitura considera fundamentais e pretende priorizar nos próximos meses para melhorar o fluxo da cidade?

Ricardo Ventura: Nosso estudo de mobilidade urbana em andamento visa planejar a cidade para os próximos 20 anos, focando nos gargalos da região central causados pelas atividades portuária e aeroportuária. Em parceria com o DNIT, estamos finalizando as obras no quilômetro 4 da BR-470, liberando o viaduto de acesso ao bairro Machados e Volta Grande. Para o futuro, já temos projetos protocolados junto ao Estado para a duplicação da Rua Honório Bortolato, que viabilizará um novo acesso ao aeroporto pelas Pedreiras, e planejamos uma grande reforma no acesso principal da cidade (Km 0 da BR-470) para 2027.

Com mais de 73 mil veículos locais e 2.300 caminhões diários, o trânsito exige investimentos contínuos; por isso, reforçamos a Navetran com novos agentes e guardas municipais. Outro desafio complexo é o avanço da micromobilidade, como os veículos autopropelidos e ciclomotores, muito utilizados por jovens em idade escolar. Embora essenciais para o transporte atual, a falta de identificação e o desconhecimento das regras de direção defensiva têm causado acidentes graves em pontos cegos de caminhões.

Como gestor e jurista, defendo que a regulamentação definitiva deve vir do Governo Federal via Código de Trânsito Brasileiro (CTB), evitando que cada município crie leis esparsas e confusas. Enquanto isso, nossa intenção é atuar de forma preventiva na conscientização dessas famílias e avaliar ações educativas diretamente nas escolas da rede municipal para garantir a segurança viária.

JC – O senhor assumiu o comando definitivo da prefeitura em abril, após a saída de Liba Fronza para concorrer ao cenário estadual. Como tem sido esse período de transição planejada e de que forma o senhor busca imprimir o seu ritmo de gestão mantendo as entregas do projeto original?

Ricardo Ventura: Sinto-me muito à vontade à frente da Prefeitura porque essa transição foi cuidadosamente planejada. Desde a nossa eleição, o Liba dividiu comigo as agendas, reuniões e decisões estratégicas. Além disso, minha experiência prévia como Procurador-Geral do município me trouxe o conhecimento técnico necessário para assumir o Executivo de forma natural. Nosso norte continua sendo o plano de governo original, que foi desenhado para o futuro de Navegantes, e não para projetos pessoais. Imprimir o meu ritmo significa agir com pulso firme e responsabilidade. Nestes primeiros meses de gestão, enfrentamos desafios complexos e tomamos decisões difíceis, como a rescisão do contrato com a antiga empresa de coleta de lixo, que não prestava um bom serviço, e o andamento do edital de concessão da água e esgoto. Administrar exige tomar posições; não busco o consenso geral a qualquer custo, pois isso é a receita do insucesso. Junto com a nossa equipe, meu compromisso diário é gerir o recurso público de forma técnica e transparente para garantir que as entregas prometidas cheguem à população.

JC – Navegantes conquistou recentemente a nota máxima (A+) no Indicador de Capacidade de Pagamento (Capag) do Tesouro Nacional. O que essa saúde fiscal representa, na prática, para a capacidade da prefeitura em contrair novos investimentos e tirar grandes projetos do papel?

Ricardo Ventura: Conquistar a nota máxima (A+) na Capag do Tesouro Nacional chancela que Navegantes está no caminho certo. Isso não é para qualquer município e nos coloca em um patamar financeiro privilegiado.

Hoje, gerenciamos um orçamento na ordem de R$ 870 milhões, com potencial para superar R$ 1 bilhão em breve. Na prática, essa saúde fiscal gera dois grandes benefícios: primeiro, nos dá excelente poder de barganha e descontos em licitações, pois o mercado sabe que o município honra rigorosamente seus fornecedores.

Segundo, nos permite contrair linhas de crédito para investimentos com juros baixos e excelentes prazos de carência. O reflexo imediato dessa credibilidade é que já aprovamos na Câmara Municipal uma nova operação de R$ 100 milhões, recurso que será integralmente injetado em obras de educação, infraestrutura e saúde logo após o período eleitoral. Esse cenário atual contrasta totalmente com o histórico antigo da cidade, que no passado precisava tomar empréstimos para pagar a folha de salários. Esse resultado histórico não é mérito de uma única pessoa, mas fruto de um trabalho em equipe que envolve contadores, secretários e servidores dedicados em fazer a engrenagem pública funcionar e transformar a vida da população.

JC – O senhor é advogado, contador e natural de Navegantes, com histórico de forte ligação com causas sociais na comunidade. Olhando para a sua trajetória, qual é o seu maior sonho político e o legado que deseja consolidar na história do município?

Ricardo Ventura: Tenho muito orgulho de ser navegantino e de ter moldado minha história na comunidade. O que me despertou para as causas sociais foi a necessidade; fiz faculdade de Ciências Contábeis com uma bolsa de estudos do Artigo 170 e, em contrapartida, precisava cumprir horas como voluntário. Essa experiência acendeu em mim um propósito que me levou a atuar por anos em entidades fundamentais do município, como a APAE, a AMA e a Rede Feminina de Combate ao Câncer.

Não tenho vaidade com o poder ou com a liturgia do cargo. Sou um cidadão comum, com as mesmas angústias e desafios familiares de qualquer morador. Por isso, não quero um legado personalizado. Meu maior sonho político é que as pessoas olhem para trás e lembrem que passou por aqui uma equipe de secretários e servidores que abriu mão de suas vidas particulares para deixar uma cidade melhor.

Queremos consolidar um município com infraestrutura forte, educação de qualidade para os nossos 21 mil alunos e acolhimento para a nossa população idosa, que já representa 13% dos habitantes. Navegantes não produz um real sozinha; geramos o dinheiro dos contribuintes e temos o dever de aplicá-lo com responsabilidade extrema. Tudo o que faço na gestão é para que as minhas filhas possam crescer, estudar e escolher viver na mesma cidade que eu e a mãe delas aprendemos a amar.

Nasci em Navegantes, pretendo encerrar minha vida aqui e meu maior compromisso é terminar este mandato com a certeza de ter feito o meu melhor, podendo caminhar de cabeça erguida e olhando nos olhos de cada cidadão.

JC – Para encerrar, neste mês em que a cidade comemora seus 64 anos com grandes eventos e shows nacionais, qual é a mensagem principal que o prefeito Ricardo Ventura deixa para o coração do povo navegantino?

Ricardo Ventura: Minha principal mensagem ao povo navegantino neste aniversário de 64 anos é: continuem amando e acreditando em Navegantes. Deixamos de ser aquela cidade pacata e dependente de municípios vizinhos de duas décadas atrás. Com a chegada da Portonave em 2005 e o forte avanço da construção civil, do setor aeroportuário e de serviços, vivemos uma migração contrária: hoje, pessoas de toda a região vêm para cá morar, estudar e empreender. Somos uma cidade jovem, acolhedora e que ainda tem um potencial gigantesco de desenvolvimento.

Quando me perguntam sobre a obra do futuro, muitos pensam no túnel subaquático entre Navegantes e Itajaí. Essa é uma realidade regional irreversível, apoiada pelo Banco Mundial na primeira operação consorciada do mundo desse modelo, e cujo contrato devemos assinar ainda este ano. Mas, para mim, o maior marco que vamos iniciar é a construção da maior escola da história do município, cujo edital de licitação está em andamento para começarmos as obras no início de 2027.Sou filho de uma professora e de um marítimo, e sei por experiência própria que nada transforma mais uma sociedade do que a educação. Pontes e asfalto são fundamentais, mas uma comunidade mais justa, crítica e próspera só se constrói investindo em infraestrutura escolar, na valorização e na capacitação dos nossos professores. Trabalhamos de segunda a segunda para entregar essa cidade melhor para todas as gerações.

Parabéns, Navegantes!

Texto: Redação JC

Fotos: Secom